O Banco do Brasil corre o sério risco de ser privatizado, com o consequente desmonte da Cassi e da Previ, caso o candidato Flávio Bolsonaro (PL) vencer o segundo turno da eleição para a presidência da República, como ele próprio e sua equipe econômica admitiram em entrevistas recentes.
Na CEO Conference Brasil 2026, organizada pelo BTG Pactual no dia 11 de fevereiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que vai implementar um amplo programa de privatizações de empresas estatais caso vença as eleições:
“Não dá para ser tudo, mas vamos privatizar 95%”.
A coordenadora do plano econômico de sua campanha, Daniella Marques (que presidiu a Caixa Econômica Federal no final do governo Jair Bolsonaro), declarou no último dia 14 de setembro, durante reunião com empresários do grupo Esfera Brasil, em São Paulo, que “mais de 20 estatais” devem ser privatizadas, em caso de eleição do senador. E deixou claro que o “Banco do Brasil poderia (ser uma delas)”.
Tanto Daniella quanto Flávio Bolsonaro não escondem a simpatia pela política econômica do presidente argentino Javier Milei, que implantou no país vizinho um radical programa de privatizações e de cortes de direitos sociais e salários de servidores públicos e aposentados, levando um terço da população da Argentina à pobreza.
Alerta dos eleitos da Previ
Para Alberto Alves Júnior, diretor de Planos de Saúde e Relacionamento com Clientes da Cassi, esses planos anunciados por Flávio Bolsonaro e sua equipe “são uma continuidade do projeto do governo do seu pai, que privatizou a Eletrobrás e todo o controle sobre o planejamento energético do país, fatiou a Petrobras e vendeu todo o setor de refino e de distribuição, reduzindo as áreas de exploração e elevando a dependência de importação de combustível”.
Matéria publicada nesta quinta-feira 8 pela Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro) lembra que o governo Bolsonaro já havia promovido um processo de desmonte do Banco do Brasil, com o fechamento de agências, desligamento de funcionários e venda de ativos entre 2019 e 2022, beneficiando justamente o BTG Pactual.
Em junho de 2020, um fundo ligado ao BTG comprou pelo valor de R$ 371 milhões uma carteira de crédito do BB avaliada em R$ 2,9 bilhões. Segundo a Contraf-CUT, a estranha diferença de 90% entre o que a carteira valia e o preço pelo qual foi vendida, chamou a atenção da Controladoria-Geral da União (CGU), que apontou a falta de planejamento e de justificativas mercadológicas para a operação.
Em abril do mesmo ano, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, disse, durante reunião ministerial que teve a gravação divulgada posteriormente pela Polícia Federal:
“O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização (…) Então, tem que vender essa porra logo”.
“Acabar com o BB é destruir um grande agente de desenvolvimento, que leva crédito para todo o país. Sem crédito, a economia não se sustenta, elimina empregos e diminui a renda das famílias”, denuncia Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT. “Em junho de 2026, a carteira de crédito expandida do BB alcançou o patamar de R$ 1,3 trilhão, número que consolida sua estabilidade no mercado financeiro e que comprova que não há justificativa alguma para vender um banco público tão importante para o Brasil”, observa a dirigente.
Segundo ela, partes significativas desse valor – R$ 1,3 trilhão – são créditos para o agronegócio (R$ 421,6 bilhões) e créditos à carteira de negócios sustentáveis (R$ 431,5 bilhões).
Durante o governo Jair Bolsonaro, a participação do Banco do Brasil no crédito total do país sofreu queda de 18,5% para 15,9%. A empresa também perdeu 5,6 pontos percentuais de participação de mercado no crédito rural, saindo de 57,7% para 52,1%. Este também foi um período em que o BB fechou 739 agências, ou 185 por ano, e 10.936 postos de trabalho, ou 2.734 por ano. Com o retorno de Lula ao Palácio do Planalto, em 2023, o BB retomou o protagonismo no fomento de crédito, em especial para o agronegócio e à agricultura familiar.
Privatização do BB seria o fim da Cassi e Previ
Para Luciana Bagno, diretora eleita de Risco Populacional, Saúde e Rede de Atendimento da Cassi, não é difícil imaginar como a Caixa de Assistência e a Previ seriam impactadas em uma eventual privatização do Banco do Brasil.
“A história mostra que a primeira coisa que um ‘investidor’ faz ao comprar uma empresa estatal é aumentar o lucro com corte de empregos, salários e benefícios, reduzindo ao máximo a estrutura e os custos da empresa adquirida”, adverte Luciana.
“Além de impactar a Cassi e a Previ com a redução de funcionários participantes e corte de salários, eventual comprador do BB vão certamente reduzir os benefícios e coberturas que conquistamos ao longo de décadas e décadas de lutas e conquistas, e que hoje são melhores que os praticados no mercado”, alerta ainda Luciana Bagno.
Pense bem antes de votar
“Por isso, antes de votar, o funcionário do BB precisa pensar no seu futuro e no de sua família”, aconselha Juvandia Moreira, da Contraf-CUT. “Os investidores que compram a empresa querem mudar a cultura e reduzir despesas e, para eles, a maneira mais eficiente de fazer isso é cortar cabeças, contratando funcionários com salários mais baixos. Quando a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) foi privatizada, por exemplo, 40% dos funcionários foram demitidos logo após a transferência da empresa para o capital privado. Com a privatização do BB não seria diferente.”
A coordenadora da Comissão de Empresa dos Funcionários do BB, Fernanda Lopes, também reforça os sérios riscos da privatização, tanto para o funcionalismo quanto para a população brasileira.
“Hoje o Banco do Brasil tem mais de 84 mil trabalhadoras e trabalhadores no seu quadro de trabalho, 51 mil postos de atendimento, com presença em mais de 93% dos municípios brasileiros, dando acesso a atendimento e recursos à população, onde os bancos privados e o mercado não querem atuar”, explica.
“A Eletrobrás foi privatizada no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (PND), uma das principais bandeiras da gestão Jair Bolsonaro e que, claramente, será retomada em caso de eleição do filho. A questão colocada, portanto, agora é: estariam os funcionários do BB, da ativa e aposentados, dispostos a pagar pra ver?”, conclui Fernanda Lopes.
(Com informações da Contraf-CUT)






