Filha de funcionário do Banco do Brasil (que ela acabou de perder dois dias após tomar posse), a mineira Luciana costuma dizer que “nasceu na Cassi”, onde continua até hoje, 23 anos após entrar no banco. Graduada em Psicologia pela PUC-MG, com MBA em Gestão Estratégica, Luciana Bagno foi gerente no Segmento Alta Renda, diretora do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e representante da Fetrafi-MG na Comissão de Empresa dos Funcionários do BB. Ela também foi diretora executiva da Fundação Banco do Brasil e conselheira deliberativa eleita da Previ.
Nesta entrevista, Luciana explica seu ousado plano de gestão, centrado na Atenção Primária à Saúde (APS), com ações planejadas em oito frentes diferentes, que vão desde a expansão da rede de atendimento e da implementação do TeleSaúde e de outras novas tecnologias até programas voltados para a Saúde do Trabalhador e Saúde da Mulher. “Nossa visão de Atenção Primária é focar mais na saúde, na prevenção, no acompanhamento do paciente, para que ele não precise das outras atenções secundária e terciária. Nosso objetivo é fazer com que a Atenção Primária funcione de fato e que chegue em todos os participantes de norte a sul do país, tanto da ativa quanto do aposentado”, diz a nova diretora eleita. Confira na entrevista abaixo.
O seu plano de gestão é bastante ambicioso. O que você está pensando em mudar na gestão, o que você vai dar continuidade e o que você está trazendo de novo?
Luciana Bagno – O meu plano de gestão traz sim muitas coisas que vinham sendo realizadas pela diretoria do Fernando Amaral, que já vinha conduzindo coisas bacanas. Eu acho isso importante porque a gente sempre falava na campanha eleitoral que éramos concorrentes, mas que ele é uma pessoa que tem a mesma visão de Cassi que a gente tem, que entende que a Cassi tem sempre que seguir pelo caminho da solidariedade. Então, muitas coisas que estavam lá vamos dar continuidade, como por exemplo a expansão e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS), a expansão das nossas CliniCassi e relocalização. Porque, se estamos falando de Atenção Primária, que é o coração da Cassi e da Diretoria de Saúde, temos que ter boas estruturas para atender o nosso participante. Então isso vai ter continuidade.
Você poderia explicar rapidamente para o associado o que é Atenção Primária à Saúde?
Luciana – Bom você perguntar isso, porque a gente fala e muitas vezes o associado não tem clareza sobre sua importância. Atenção Primária é, como o próprio nome diz, o primeiro atendimento, a primeira porta que o associado vai entrar na Cassi. Isso é muito importante porque, se a gente tem uma Atenção Primária bem feita, que é focada na prevenção, com capilaridade e com a abrangência que a gente precisa, estaremos promovendo a saúde. Hoje a nossa Atenção Primária se dá principalmente pelas CliniCassi, onde o associado e a associada são atendidos pelo seu médico da família, terão acompanhamento contínuo. Nossa visão de Atenção Primária é focar mais na saúde, na prevenção, no acompanhamento desse paciente, para que ele não precise das outras atenções secundária e terciária. Nosso objetivo é fazer com que a Atenção Primária funcione de fato e que chegue em todos os participantes de norte a sul do país, tanto da ativa quanto do aposentado.
O que você pretende agregar na Atenção Primária?
Luciana – Vou procurar na nossa gestão — eu detesto falar “eu” porque não existe “eu” aqui, eu sempre tive essa visão de que a gente é um mandato coletivo, estou aqui sendo um instrumento para poder fazer essas coisas funcionarem — fazer com que a Atenção Primária seja mais proativa. Eu nasci e cresci dentro da Cassi, eu vi essa Atenção Primária sendo estruturada e avançando, e a Cassi sempre foi um grande exemplo, que vem avançando muito ao longo dos anos e a gente tem que valorizar e honrar quem fez essa caminhada. Porém, a gente precisa que essa Atenção Primária chegue a mais pessoas e que ela seja mais efetiva.
E como você pretende tornar a APS mais proativa?
Luciana – Vamos continuar com as ampliações das CliniCassi. E embora a Atenção Primária se dá prioritariamente pelas CliniCassi, ela não pode ser operacionalizada exclusivamente pelas CliniCassi. Primeiro porque tem determinadas localidades em que a gente não vai conseguir ter CliniCassi, principalmente nesse primeiro momento. Temos alguns critérios que estou querendo revisitar, que é a de quantidade de participantes que a gente tem que ter para determinado porte de CliniCassi. Então, além das CliniCassi, queremos levar a Atenção Primária à Saúde também às clínicas parceiras e às “células avançadas”.
O que serão as células avançadas?
Luciana – Muitas vezes, para eu prestar uma Atenção Primária de qualidade não preciso de uma grande estrutura. Então, em localidades onde não há quantidade de vidas suficiente para ter uma CliniCassi, mas eu preciso de bons profissionais para fazer a Atenção Primária, essas células serão estruturas que vão contar com bons profissionais para fazer a Atenção Primária naquela localidade.
E como você pensando o Telesaúde APS?
Luciana – Aí vem o que eu acho que pode ser um grande diferencial. Durante as minhas visitas aos locais de trabalho e às CliniCassi vi que muitas vezes o associado não tem Atenção Primária porque não tem uma CliniCassi naquela localidade ou porque a CliniCassi está muito distante. Ou, muitas vezes — principalmente o colega da ativa — ele não tem tempo. Porque nós somos a sociedade do imediatismo. Eu vou no médico quando eu estou doente, e olhe lá. Eu não vou sair e perder duas horas do meu dia para ir numa CliniCassi para fazer um trabalho de prevenção e acompanhamento. Então o que eu quero? Estabelecer o modelo híbrido. Nas capitais, queremos ter o Telesaúde APS. Uma vez que o associado já está na Cassi, já tem o seu médico de família, o meu companhamento não precisa ser presencial. Porque 90% das vezes esse acompanhamento vai ser uma conversa, saber como está, pedidos de exame, prescrição de remédios. E esse acompanhamento eu consigo fazer pelo Telesaúde. Com isso eu consigo trazer mais gente para essa Atenção Primária e fazer um acompanhamento de fato. Porque esse é o desafio da Cassi: não é cadastrar gente na Atenção Primária, é fazer esse acompanhamento efetivo. Então essa é uma das mudanças que a gente quer trazer para a gestão.
E quais outras políticas que a gestão anterior já vinha desenvolvendo que você vai dar continuidade ou ampliar?
Luciana – As Redes Temáticas. O Amaral já vinha desenvolvendo em parceria com a diretoria do Júnior (Diretoria de Planos de Saúde e Relacionamento com Clientes). Na gestão anterior, já vinham desenvolvendo a questão das “Redes Referenciadas”. O que é isso? Hoje, o próprio associado, quando entra no app da Cassi, tem a opção de avaliar o prestador. A partir dessas avaliações, essa rede referenciada vem sendo construída, onde eu vou ter bons prestadores a partir da avaliação do próprio usuário e uma avaliação técnica da Cassi. A gente vai dar um passo adiante, que vai ser a criação das “Redes Temáticas”. Elas serão como subprodutos dessa rede referenciada, onde eu pretendo começar com umas três redes temáticas que seriam, a princípio: Saúde do Trabalhador, Oncologia e Saúde da Mulher. São grupos de pessoas que não é aquele paciente que vai ali fazer uma consulta, prescrever um medicamento e acabou. São grupos que precisam de acompanhamento contínuo. Os crônicos também, que talvez seja o nosso maior grupo hoje: diabetes, dislipidemia, pressão alta.
E como vão funcionar as redes temáticas?
Luciana – A partir dessa rede referenciada, queremos ter uma rede temática com prestadores das especialidades (que geralmente não é uma só) e que coordenarão o cuidado desse participante. Faremos um acompanhamento desse paciente crônico e orientar melhor. O paciente oncológico — eu passei por isso recentemente — muitas vezes descobre um câncer e nem sabe para onde vai. Nesse momento, a Cassi vai estar lá para orientar: “Você vai nesse oncologista, nesse mastologista, vai fazer seu exame nesse hospital”, tudo dentro da nossa rede temática. Isso a gente pretende fazer inicialmente para uns três grupos para poder expandir para os demais.
Uma das iniciativas que você propõe é a frente “Informação, Educação e Comunicação em Saúde”. Você explicar o que é isso?
Luciana – A gente fala muito de educação previdenciária e financeira, mas temos que falar muito também da educação em saúde. Queremos estruturar um curso na própria Unibb (Universidade Corporativa Banco do Brasil) para fazer essas informações chegarem mais ao nosso associado, principalmente se considerarmos que temos um contingente enorme de pessoas jovens que entraram no banco nos últimos anos e que não têm tanto esse conhecimento do que é a Cassi, o que é trabalhar com Atenção Primária e prevenção. Queremos levar esse conhecimento de uma forma mais didática, gamificada, para que essa informação chegue de fato ao associado.
E quais outras novidades você pretende implantar na Cassi?
Luciana – Minha cabeça fica borbulhando de ideias. Infelizmente na primeira semana de mandato eu perdi meu pai, então minha energia deu aquela baixada, mas aos pouquinhos está voltando. Quero fazer meu mandato para honrar o nome dele também, que sempre gostou tanto da Cassi. Mas uma das ideias que eu tive recentemente: como a gente faz para ter um acompanhamento mais efetivo do nosso associado? Toda a parte de orientação do cuidado passa pela “interoperabilidade”. Durmo e acordo pensando nisso hoje. Que é você conseguir ter o compartilhamento de prontuário e de informações, tudo, óbvio, respeitando a LGPD e com consentimento do associado. Mas é importante que eu tenha as informações desse participante compartilhadas para que eu possa de fato trazer isso para a minha Atenção Primária. Então tudo o que o participante fizer na rede, os médicos que ele consultar, quando ele estiver dentro da nossa rede referenciada, isso vai estar conectado também com as nossas CliniCassi. A própria Telesaúde tem que ter essa interoperabilidade funcionando. E vou dar um spoiler: a gente quer apostar muito também nos dispositivos “wearables”. Muita gente já tem os smartwatches, que medem sono, oxigenação, batimento cardíaco, pressão. Queremos viabilizar esses equipamentos para os nossos associados e, a partir daí, para quem estiver na Atenção Primária. É uma forma de induzir o comportamento de ir para a APS e que a gente possa fazer o monitoramento da saúde dele a partir dos dados fornecidos pelo relógio. É uma forma de a gente qualificar e dar escalabilidade para o acompanhamento dos associados. Isso é um ganho enorme para o associado e para a gente também em termos de prevenção e redução de custos com internações e exames desnecessários.
E quais outros programas, que você está chamando de “frentes” no seu projeto?
Luciana – Exato. Hoje estamos trabalhando com oito frentes. A “Saúde do Trabalhador” é uma questão que vamos dar um foco muito grande. Em que sentido? O nosso exame periódico, por exemplo, é um momento muito valioso para conhecermos o nosso participante e identificar doenças físicas ou mentais sinalizadas naquele questionário. A nossa ideia é conectar o exame periódico com a nossa Atenção Primária. Eu acho que o nosso exame periódico teria que ser feito pelo próprio médico da família. Tudo isso depende das nossas conversas com o banco, pois o periódico está dentro do PCMSO, que é um contrato da Cassi com o Banco do Brasil.
E como funcionaria essa frente “Saúde do Trabalhador”?
Luciana – A ideia é que haja o compartilhamento das informações entre o médico que avaliou e o médico da família. Quero passar essa segurança para o associado: o sigilo é garantido. A gente sabe que muitos associados têm receio de falar de algum problema no exame periódico temendo que vai vazar. Isso não vai ocorrer. O sigilo será com o médico da família para que ele comece o acompanhamento daquele funcionário, orientando se ele precisa de um especialista ou exames.
E também pretendemos fazer um programa de acompanhamento daqueles funcionários que estão afastados há mais de 90 dias. Eu sou psicóloga de formação, e quanto maior o tempo de afastamento, mais difícil é para ele retornar, pelo medo do que vai encontrar, pela fragilidade… A gente quer ajudar nesse retorno para a atividade e com isso evitar inclusive as recidivas, que é um novo afastamento após pouco tempo de retorno. Queremos trazer saúde mental e conforto para o nosso associado.
Outra frente que você está priorizando é a “expansão do uso de dados na
gestão populacional”. O que é isso?
Luciana: Dentro da nossa diretoria temos a gerência de saúde, rede de atendimento e risco populacional. A gerência de risco populacional é onde tudo começa. Ela faz os estudos populacionais. É com base nisso que vamos saber onde atuar e que problema sanar. Queremos que esses dados sejam de fato convertidos em ações. Os dados são riquíssimos, estudos muito robustos. Queremos pegar esses dados e transformar em ações efetivas para o cuidado da população. A abrangência da Cassi é muito grande: o problema que tenho no Norte é completamente diferente do Sul. A qualificação desses dados vai me permitir ter uma atuação muito mais efetiva nessas diversas populações.
Sobre a saúde da mulher, tem algo específico planejado?
Luciana – Tem uma frente que não está especificamente no plano de gestão mas vai entrar nas redes temáticas e conversar com a saúde do trabalhador: a “Saúde da Mulher”. Quero que essa seja uma das nossas primeiras redes temáticas. Gostaria de incluir no questionário do periódico questões relativas à saúde da mulher. Temas como vida fértil, gestação, parto humanizado até a menopausa. No banco, nosso público da ativa feminino está muito na faixa dos 35 aos 45 anos, que é quando a mulher começa a sentir os efeitos da perimenopausa. Ninguém fala disso. A queda dos hormônios tem impacto na vida pessoal e profissional (dorme mal, fadiga, oscilações de humor). Queremos trabalhar formas hormonais e não
hormonais de dar qualidade de vida para essas mulheres. E incluo aqui as
mulheres que passaram pelo câncer, como eu. Hoje as mulheres não estão morrendo de câncer como antigamente, estamos sobrevivendo. Só que sobreviver ao câncer não é a reta final. Começa uma outra fase difícil, muitas vezes com menopausa antecipada pelo tratamento. Toda essa parte do cuidado a gente tem que ter esse olhar. O mundo está mudando, o perfil das doenças e dos nossos associados está mudando, e a Cassi tem que acompanhar.
E gostaria de ressaltar que o plano de fundo de todo esse plano de gestão é o contato constante com os nossos associados. Quero visitar todas as CliniCassi, me reunir com os nossos Conselhos de Usuários (instância que o Amaral já valorizava muito e queremos continuar). E também as nossas “lives” para prestar contas do mandato.
Para concluir, vocês eleitos e as entidades representativas do funcionalismo do BB estão negociando com o banco um plano de sustentabilidade da Cassi. Como você está enxergando isso? Está otimista que se chegará a um acordo?
Luciana – Luciana – Luciana – Eu sou otimista de nascimento. E eu gosto de negócio difícil. Já cheguei na Cassi com déficit e negociação. Estou muito otimista que a gente consiga uma solução para sanar esse momento de déficit. Temos que trabalhar com ações de curto e médio prazo. A de curto prazo é conseguir o aporte de recursos que precisamos para dar o respiro e tirar a Cassi da situação de risco de uma direção fiscal da ANS. Mas temos que pensar urgentemente em uma solução mais perene e sustentável. Não dá para ficarmos sentando de dois em dois anos para negociar custeio, aumentando contribuição de um lado e de outro. Isso não é sustentável. O problema a gente já sabe: as contas não fecham. E nem quero que fechem no sentido de “plano de mercado” (onde se o custo sobe, eu reajusto e quem não pode pagar, sai). O nosso modelo de solidariedade é um desafio para a sustentabilidade, mas tem solução. Queremos uma solução de longo prazo para que a gente possa trabalhar nos projetos sem interrupções por crises financeiras.
Assista a entrevista completa:










